O que 2020 abalou…

O que 2020 abalou. Um ano fora do normal, um ano de pandemia. Que não precisa de grandes considerações ou discursos perante um vírus e suas vítimas mundiais. Cada uma com seu nome e sua história. Porém, começando com muitas expectativas este ano, veio abalar algumas certezas e hábitos pessoais e comunitários. Muita coisa dada como certa e muitas questões que estavam submersas vieram ao de cima. Vamos elencar alguns sucintamente para não cansar o leitor:

Ao nível pessoal, a pandemia, confinamento e regras sociais e convívio mais apertadas vieram mexer com o equilibrio psicológico  e saúde mental de muitas e muitos. Sozinhos em casa ou em família, todos sofreram uma paragem obrigatória onde se confrontaram consigo mesmos. Neste link podemos encontrar um estudo sobre a matéria. As relações inter-pessoais sofreram com a paragem.

Os nossos hábitos de consumo mudaram. Do físico ao online, principalmente. Mas, existem vários pontos a ter em conta, quando falamos da sensação (que como a palavra indica, algo sensitivo fora das estatísticas mas que as próprias têm de ter em conta, em momentos como estes): sensação de perigo de vida, sensação de fragilidade humana e da sociedade onde estão inseridos, relatividade aos bens de consumo, hierarquização de necessidades e futuro humano e financeiro incertos. Tudo isto leva a uma fragilização do consumidor como tal. Tendo em conta que, para além de consumidor, é pai, mãe, filho ou filha, namorado ou marido.

O consumidor vai querer adquirir bens de consumo essenciais tanto agora como nos próximos tempos, vai ser mais exigente com os bens que já possui, as vendas em segunda mão serão uma saída para quem tem o armário cheio e a selectividade será a palavra de ordem. Ler o artigo.

Ao nível comunitário, percebemos a fragilidade das relações comerciais e da economia. Seja em Portugal, como ao nível mundial (somos um mundo global, com o efeito borboleta a sentir-se cada vez mais) percebemos que um país não pode basear a sua economia num só sector. O turismo, na euforia e no deslumbre, desde 2017 concedeu-nos uma falsa sensação de enriquecimento. Porém, é um sector instável e cheio de emprego precário, como se pode ver agora no impacto no tecido social.

No mundo da comunicação, onde nos inserimos foram postas em causa muitas fórmulas rotineiras. Não basta um press release enviado, não há ainda lugar para as apresentações à imprensa nos moldes pré-covid. Reinventar e fugir ao Chapa 3, é o lema no mundo da comunicação e assessoria de imprensa.

2020 deu-nos tempo para pensar na sustentabilidade verdadeira, confrontando marcas, governos, estados e pessoas a repensar os seus hábitos e produção. Nâo há planeta B. Por isso o planeta e a questão ambiental não estão na ordem do dia, fazem parte do nosso quotidiano já. Percebem os líderes políticos, religiosos e sociais como também a Moda. Como parte desta sociedade não pode passar ao lado do impacto que a sua indústria causa no meio ambiente. A sociedade como um todo, nos seus vários aspectos, tem de garantir que a continuidade do desenvolvimento aconteça sem minimizar ou esgotar os recursos do planeta. Ler o artigo.

Porém, não podemos falar de sustentabilidade sem referir uma muito importante. A sustentabilidade humana das nossas cidades e povoações. A cidade é um ser vivo, que precisa de cuidados a todos os níveis; o indice de satisfação dos que nela vivem é mais importante que uma crítica numa rede social. De facto, cidade está a ser repensada até ao nível da arquitectura. “If one thing is certain, it’s that our definition of normal has changed. After months in lockdown to prevent the spread of the coronavirus, cities are reopening — some with masks and social distance, others with still growing numbers of infection. It’s unclear what cities will look like in a year or more, but in many areas the landscape is already starting to shift.” Ler o artigo na íntegra.

Quando se fala na indústria da Moda, os desafios foram enormes e continuam a ser. Uma marca que continue a insistir nos moldes pré-covid não percebeu nem a mudança nos consumidores nem si mesma. A célebre carta de Giorgio Armani à revistaWomen’s Wear Daily no começo da pandemia resume muitos dos desafios da moda. “Quem compra roupas para colocá-las num guarda-roupa esperando a estação certa para usá-las?” continua o criador de moda. “Ninguém, ou alguns, acredito. Mas esse sistema, impulsionado pelas department stores, tornou-se a mentalidade dominante. Errado, precisamos mudar, essa história deve terminar. Esta crise é uma oportunidade maravilhosa para desacelerar tudo, realinhar tudo, traçar um horizonte mais autêntico e verdadeiro”.

Este é um apelo à mudança do consumo, mais consciente, mais realista e menos fútil. Até podemos reflectir sobre o produzir nacional e o consumo nacional, sobre os pequenos negócios que não têm de seguir este ritmo consumista. E, reflectir sobre o que é verdadeiramente consciente, se é uma peça que é feita para durar ou 25 peças que vamos comprando ao longo do ano, num ritmo devorador. Ler o artigo na íntegra.

Todas estas considerações não negam, no meio da memória de todas as vítimas mortais e hospitalizadas, alguns benefícios neste tempo. Seja pela consciência de vários problemas da sociedade, que no meio da euforia, não eram considerados na reflexão pessoal e comunitária. Seja pelo desafio da reinvenção de toda uma economia mundial, da nossa vida e dos objectivos da sociedade.

Nas palavras do fado de Mafalda Arnauth, Audácia:

já lá vai o fado escuro
já lá vai o medo em muro
já lá vai não querer dizer o que aí vem
já lá vai não querer saber pra onde vai
já lá vai o não querer ver
que é sem segredo
que damos cabo do medo.