Os sonhos de Francisco para a Europa

Os sonhos de Francisco para a Europa foram expressos numa carta assinada um dia depois da homenagem de França ao professor mutilado e assassinado por ódio à liberdade, à democracia, à república francesa.

Nessa mesma homenagem o Presidente Emmanuel Macron põe claro que o país não vai aceitar isto. E realça uma vertente importante do estado e da tarefa dos professores “Alors, reviennent comme en écho les mots de Ferdinand BUISSON « Pour faire un républicain, écrivait-il, il faut prendre l’être humain si petit et si humble qu’il soit […] et lui donner l’idée qu’il faut penser par lui-même, qu’il ne doit ni foi, ni obéissance à personne, que c’est à lui de chercher la vérité et non pas à la recevoir toute faite d’un maître, d’un directeur, d’un chef, quel qu’il soit » « Faire des républicains », c’était le combat de Samuel PATY”. Um republicano ou um democrata, seriam iguais as palavras.

Ontem, fomos confrontados com um outro ódio, o ódio à religião cristã, parte da grande herança europeia. Actos de ódio contra fiéis, na catedral de Notre Dame de Nice, durante a celebração da Missa. Ao som de “allah àkbar” foram chacinados pessoas, francesas, republicanas ou não, católicos por um ódio sem razão. Irracional.

No meio deste momento de dor, de pandemia, de horror e de confusão, decidimos (fora mais uma vez da linha editorial) partilhar os sonhos do Papa Francisco para a Europa. Neste tempo, não podemos perder o direito e o anseio de poder dizer: “I have a dream!“. Não parou Martin Luther King, nem nos irá parar na construção de uma Europa, de um Mundo mais justo. Durante, pós e a seguir à pandemia.

1 – “Sonho uma Europa amiga da pessoa e das pessoas. Uma terra onde seja respeitada a dignidade de cada um, onde a pessoa seja um valor em si mesma e não o objeto dum cálculo económico nem uma mercadoria. Uma terra que defenda a vida em todos os seus momentos, desde o instante em que surge invisível no ventre materno até ao seu fim natural, porque nenhum ser humano é dono da sua própria vida ou da dos outros. Uma terra que favoreça o trabalho como meio privilegiado para o crescimento pessoal e a edificação do bem comum, criando oportunidades de emprego especialmente para os mais jovens. Ser uma Europa amiga da pessoa significa promover a sua instrução e desenvolvimento cultural; significa proteger os mais frágeis e débeis, especialmente os idosos, os doentes que carecem de tratamentos custosos e as pessoas com deficiência. Ser uma Europa amiga da pessoa significa defender os direitos, mas também lembrar os deveres; significa recordar que cada um é chamado a prestar a sua própria contribuição à sociedade, pois ninguém é um universo à parte e não se pode exigir respeito por si mesmo, sem respeito pelos outros; nem se pode receber, se ao mesmo tempo não se está disposto também a dar”

2- “Sonho uma Europa que seja uma família e uma comunidade. Um lugar que saiba valorizar as peculiaridades de cada pessoa e de cada povo, sem esquecer que estão unidos por responsabilidades comuns. Ser família significa viver em unidade, valorizando as diferenças a começar pela diferença fundamental entre homem e mulher. Neste sentido, a Europa é uma verdadeira família de povos, diversos entre si, mas ligados por uma história e um destino comuns. Os últimos anos, e ainda mais a pandemia, têm demonstrado que ninguém pode sobreviver sozinho e que uma certa forma individualista de conceber a vida e a sociedade gera apenas desconforto e solidão. Todo o ser humano aspira a fazer parte duma comunidade, ou melhor, duma realidade maior que o transcenda e dê sentido à sua individualidade. Uma Europa dividida, feita de realidades solitárias e independentes, facilmente se achará incapaz de enfrentar os desafios do futuro.”

3- “Sonho uma Europa solidária e generosa. Um lugar acolhedor e hospitaleiro, onde a caridade – que é a virtude cristã suprema – vença toda a forma de indiferença e egoísmo. A solidariedade é expressão fundamental de toda a comunidade e exige que cuidemos uns dos outros. Falamos sem dúvida duma «solidariedade inteligente», que não se limite apenas a atender às carências fundamentais quando necessário.”

4- “Sonho uma Europa saudavelmente laica, onde Deus e César apareçam distintos, mas não contrapostos. Uma terra aberta à transcendência, onde a pessoa crente se sinta livre para professar publicamente a fé e propor o seu ponto de vista à sociedade. Acabaram-se os tempos do confessionalismo, mas também – assim o esperamos – dum certo laicismo que fecha as portas aos outros e sobretudo a Deus.”

O texto completo pode ser consultado neste site.

Pope Francis arrives to address the European Parliament at the institution’s headquarters in Strasbourg, November 25, 2014. REUTERS/Christian Hartmann (FRANCE – Tags: POLITICS RELIGION)