Portugal e Património

Este post não é usual na linha editorial que traçámos para o The Gentleman. Pode ser encarado como um desabafo envolvido no contexto do final da semana passada; sexta-feira, Jornadas Europeias do Património e, domingo, Dia Mundial do Turismo. Ao que alguns se poderão perguntar mas o que têm a ver? Num país como o nosso, tudo! Porque o que atrai o turismo não pode ser só os preços baixos e a facilidade em comprar álcool.

Ora, na psicologia mais básica, quem não ama o seu corpo e a si mesmo, quem não consegue apreciar a sua vida, erros e feitos, raras vezes amará o seu próximo e será capaz de estabelecer relações saudáveis com amigos e/ou companheiros de vida. E a sociedade é um corpo, uma pessoa. Encontramos já na filosofia/teologia de Paulo de Tarso, essa imagem da sociedade ou da igreja como um corpo com muitos membros. E, muito mais tarde, numa encíclica célebre de Pio XII, Mystici Corporis Christi em 1943.

A imagem pode ser usada em qualquer sociedade visível e viva, como Portugal, um corpo ou uma pessoa. A qual se não se valoriza e não ama a sua história, com erros e grandes feitos, nunca poderá estabelecer relações saudáveis com outros e outras. O turismo é isto, basicamente, uma relação de encantamento e não, de disfarce, é sermos capazes de encarnar a narrativa do nosso corpo e passar aos outros. E, os outros reconhecendo que amamos aquilo que transmitimos ficam encantados com a especificidade do nosso corpo.

Tanto as jornadas europeias do património como o dia mundial do turismo passaram despercebidas. Nem comunicação social nem ninguém (ou se existiram, foi àgua pelo capote). O que nosso caso português económico, estando somente dependentes, assim parece, de um só sector, revela o pouco apreço pelo corpo e pela história desse mesmo corpo. Tirando algumas honradas excepções, como no Mosteiro dos Jerónimos.
Muitos dirão, ah a pandemia. E, respondemos, pandemias sempre as tiveste. E, mais, lembrando que tantos executivos passaram e “incentivaram” a presença online dos vários serviços estatais e, agora, que era necessário é crucial, nem pensaram nisso. Tudo pode ser celebrado e divulgado nos meios infinitos da internet.

Temos muito que andar, ainda em 2020, para perceber que não é só a economia que move uma sociedade. Recomendamos a leitura da situação trágica da Baixa Pombalina. Da ex candidatura à UNESCO. Desde 2004 que estamos num projecto de visitas às igrejas da Baixa e do Chiado, e muitos nos perguntavam, mas porquê às igrejas. E, agora, respondemos com algum orgulho, são os únicos edifícios a salvo, esperemos, da sanha imobiliária e do lucro devorador. Marcos da história de uma cidade que sabe receber. De grandes edíficios e monumentos, todas as capitais europeias estão cheias e algumas com bem grandiosos que os nossos.  A História do nosso corpo é feita das pequenas esquinas e estórias, do cantar e do saber que não quer prémios ou medalhas, quer estima e carinho/cuidado.

P.S.

“Património” vem do latim patrimoniu (patri, pai + monium, recebido). O termo está, historicamente, ligado ao conceito de herança.