O gigante chinês e o consumo de Moda

O gigante chinês e o consumo de Moda

O negócio da Moda é, sem dúvida, um dos negócios mais globalizados até ao momento. Ao nível planetário, criou empregos, sinergias e parcerias, inspirou milhões de pessoas e moveu milhares de milhões de euros. Por isso, quando se olha com desdém para a “moda”, não se percebe o que move a Moda em todo o mundo.  Por isso, ela sentiu no seu âmago, a crise que estamos a viver. 

Vários factores que nos fazem pensar numa mudança de paradigma da Moda e da sua concepção e produção bem como a sua comunicação e marketing. 

O caso chinês é um bom exemplo, a imprensa internacional tem referido de vários modos e maneiras, a recuperação deste importante mercado para a Moda. Ávidos consumidores de moda, ensinam-nos uma coisa importante, a relação com e-commerce. Durante a quarentena, este subiu, embora no caso da Moda tenha sofrido um certo abrandamento. Mas, as marcas mesmo de luxo, não sairam do seu mindset, posição muito importante para qualquer marca. Muitos entendidos estavam à espera de um fenómeno chamado “revenge buying”. O termo baofuxing xiaofei (“compra por vingança”) foi usado pela primeira vez na China na década de 80 do século passado, para descrever a demanda reprimida por produtos estrangeiros que haviam sido negados aos cidadãos quando o país foi fechado para o mundo exterior, antes de Deng Xiaoping instituir a abertura com as políticas do fim dos anos 70 e as marcas ocidentais começarem a inundar um mercado novo e gigantesco. 

Porém, o fenómeno ainda não se deu nesse mercado apetecível. Um estudo (China Luxury Advisors) sobre as perspectivas dos consumidores chineses lançado no principio de Março deste ano, apresenta 86% dos inquiridos, consumidores de primeira linha, afirmando que vão cortar nos gastos em 2020. Muitos dos consumidores chineses pensam em começar a adquirir produtos nacionais para aumentar a sua recuperação económica e poupar nos bens importados. 

Ultimamente, muitos meios de comunicação asiáticos, como o Asia Times, relata o encerramento de várias lojas de grandes marcas como Louis Vuitton, Prada e Valentino na cidade de Hong Kong. Sinal, sem dúvida, de um movimento contrário ao consumo de bens de luxo, mesmo no maior consumidor mundial.

Um dos sinais mais claros de que a indústria do luxo entrou numa nova fase após o COVID-19 é o foco na responsabilidade social. Conforme afirmado por outro estudo (Agility Research and Strategy), 81% dos milionários chineses (consumidores de alto poder) exigem que as marcas “comportem-se de maneira eticamente responsável”. E as causas que ganham força são água potável e saneamento, artes e cultura, comércio justo e ética.

Deste exemplo, podemos pensar e tirar reflexões para o nosso pós-COVID 19, o consumo não voltará ao mesmo, seja em Portugal, um micro-exemplo, seja no mercado europeu. 

Uma recuperação lenta em que as marcas de moda não poderão deixar de estar presentes, cada vez mais nas redes sociais e e-commerce. Todas aquelas que achavam que antes da crise, a presença online era algo que tinha de ser, serão as que mais devagar recuperarão. A menos que rapidamente desenvolvam essa presença. Para o consumidor, o desafio é consumir nacional para que a recuperação económica seja efectiva no seu país. Produzir nacional e consumir nacional é um linha de recuperação. No caso da moda, em Portugal, temos várias escolhas e opções. Não podemos ser um mercado fechado, já que a globalização é algo imparável. Mesmo que mude os seus princípios, o mundo não voltará a ser fechado por fronteiras como outrora. Isto não justifica uma dependência de um numero de outros países para o normal funcionamento do nosso. 

A real tragédia será sairmos desta situação, desta crise, desta aprendizagem, sem mudanças. O mercado, o comércio, a moda são feitos por pessoas com nome e história. Esta pode ser a melhor lição que podemos tirar.