Reflexões a partir da carta de Giorgio Armani

Reflexões a partir da carta de Giorgio Armani.  Numa carta aberta à WWD Women’s Wear Dailydesigner italiano faz um statement que provocou no setor da moda várias reacções, e claro, várias reflexões que não podemos deixar de partilhar. Uma carta contextualizada no que estamos a viver nos últimos meses na europa e no mundo.

1- Uma crítica às marcas de luxo que, para ganharem mais lucros, deixaram de ser diferentes das marcas de fast fashion. “O declínio do sistema de moda, como o conhecemos, começou quando o setor do luxo adotou os métodos operacionais da fast fashion com os ciclos de entrega contínuos, na esperança de vender mais … Não quero mais trabalhar assim, é imoral” é como começa a sua carta.  Algo que, na moda, já se falava à boca pequena, mas ninguém admitia. A diferenciação necessária entre luxo e premium, premium e não luxo. Mais ainda, da “prostituição” do sintagma “luxo”, que devido a esse fenómeno passou a ser um sintagma vazio, entregue às regras da moda casual e do banal. Muitos produtos premium são rotulados de luxo ao bel prazer dos “comunicadores”.

2- “Quem compra roupas para colocá-las num guarda-roupa esperando a estação certa para usá-las?” continua o criador de moda. “Ninguém, ou alguns, acredito. Mas esse sistema, impulsionado pelas department stores, tornou-se a mentalidade dominante. Errado, precisamos mudar, essa história deve terminar. Esta crise é uma oportunidade maravilhosa para desacelerar tudo, realinhar tudo, traçar um horizonte mais autêntico e verdadeiro”. Este é um apelo à mudança do consumo, mais consciente, mais realista e menos fútil. Até podemos reflectir sobre o produzir nacional e o consumo nacional, sobre os pequenos negócios que não têm de seguir este ritmo consumista. E, reflectir sobre o que é verdadeiramente consciente, se é uma peça que é feita para durar ou 25 peças que vamos comprando ao longo do ano, num ritmo devorador.

3- “Esta crise é, também, uma excelente oportunidade para restaurar o valor da autenticidade: basta fazer da moda um jogo de comunicação, basta com desfiles de moda em todo o mundo, apenas como desculpa para apresentar ideias sem graça. Basta com shows grandiosos que se revelam pelo que são: inapropriados, e devo dizer vulgares também. Chega de desfiles em todo o mundo, feitos através de viagens que poluem. Chega de desperdício de dinheiro para os shows, são apenas pinceladas de verniz sobre nada. O momento que passamos é turbulento, mas oferece a oportunidade única de corrigir o que está errado, remover o supérfluo, encontrar uma dimensão mais humana…Esta é, talvez, a lição mais importante desta crise”.

Os reptos levantados são para nossa reflexão, pois apontam várias questões: o gasto exagerado, a necessidade de criatividade real e oportuna, as viagens constantes com grande impacto ambiental e consumo de materiais (mesmo que sejam orgânicos e sustentáveis, etc.) e a humanização da moda. Voltar a ter dimensões humanas e não só de modelos.