Um elefante na sala, a saúde mental

Um elefante na sala, a saúde mental, está muito presente na nossa sociedade pós-moderna. Dedicada ao sucesso e à falta de falhas, centrada nos ganhos pessoais ao nível de “sermos os melhores”, a sociedade (talvez até hoje) descurou e escondeu a falta da saúde mental. As depressões, os “burn out”, as fraquezas comuns aos seres humanos expostos a um ritmo de exigência do pódio e dos prémios.

Muitas vezes, esta situação ocorreu-nos na vida. A “fraqueza” de uma mente cansada, de situações sem solução ou da rejeição afectiva sem motivo. Por isso, enfrentar este assunto é muito querido.

Em 2017, aparece o Festival Mental, onde esta temática é “exposta” e falada em muitas vertentes. Falar do “elefante” faz que ele desapareça? Não, mas que se torne um de nós, integrado na sociedade e na realidade da fibra vivente da malha urbana e não urbana. Neste sentido, colocamos alguns questões à mentora do projecto, Ana Pinto Coelho.

– Como surgiu a ideia de um festival dedicado à saúde mental?

Trouxe a ideia de Edimburgo, na Escócia, depois de uma das várias visitas que fiz àquele país. Na entrada da Filmhouse estava uma brochura com a programação do Scottish Mental Health Arts & film Festival. Voltei para Lisboa muito entusiasmada com a ideia de fazer algo semelhante, sobretudo porque era uma espécie de compilação das várias competências que fui tendo ao longo da minha vida profissional. Uma espécie de “tudo-em-um” absolutamente irresistível.

Agendei uma reunião em Glasgow com a Gail Aldam e com o Richerd Warden, respectivamente directora e curador desse Festival para trocar impressões, pois sobretudo o que me interessava saber era se o Festival tinha tido evidentes repercussões sociais e também se, de alguma forma, sido um eficiente instrumento para o combate ao estigma em saúde mental – por um lado – e um motor de novas expressões artísticas e culturais. A resposta foi uma enorme surpresa. Nessa tarde, vendo números, entendendo completamente a relação entre objectivos, causa e resultados, trouxe a certeza de que Portugal precisava de um projecto assim. 

O SMHAFF tem neste momento 14 anos de existência, 400 eventos a decorrer durante um mês inteiro em toda a Escócia. Jamais pensei em começar logo com um projecto tão ambicioso, nem terá de sê-lo, mas da ideia passei à prática. Nasceu o Festival Mental (www.mental.pt) marca registada logo em 2017, com o mesmo tipo de objectivos: combater o estigma e a iliteracia em saúde mental em Portugal, promovê-la junto da comunidade, utilizando a plataforma da cultura e artes.

É um Festival em que me sinto totalmente confortável a promover porque envolve várias das minhas experiências ao longo da vida (actualmente terapeuta na área das dependências químicas e comportamentais, antes criadora e produtora de eventos culturais, também profissional de comunicação e marketing). 

Rapidamente percebi também que quase todas as capitais (e não só) europeias e muitos estados nos EUA , bem como Austrália, Nova Zelândia, entre outros, têm um Festival desta natureza. Portugal passou a estar neste mapa que considero importante, e o Mental já faz parte da rede europeia (https://www.nefeleproject.eu/) graças ao rápido sucesso e implementação conseguida no nosso país.

– O povo português tem vergonha de falar deste assunto? Trata como um estigma social?

A pergunta já tem a resposta! Claro que sim. Contudo, tenho a certeza de que importantes passos têm sido dados nestes últimos anos. Quer através do empenho do Programa Nacional para a Saúde Mental – que mais não faz porque não pode,  pois nunca foi assunto das agendas políticas – quer da contribuição da comunicação social. No Mental tivemos, desde o primeiro momento, uma enorme preocupação a chamar os média para o nosso lado. Quer trabalhando para os ter como media partners, quer convidando sempre jornalistas para moderar as nossas M-Talks, quer trabalhando a comunicação da melhor forma que conseguimos tendo em conta a tão pequena equipa que somos. 

A saúde mental é ainda muito estigmatizada, mas acredito que seja por falta de informação pública. As pessoas têm vergonha porque, simplesmente, não sabem o que se passa e o que se pode fazer. 

No momento em que se entenda que nenhum de nós está bem toda a vida, durante 24 horas sete dias por semana, que todos tivemos ou vamos ter episódios em que estamos menos bem ou com algum problema de saúde mental porque temos corpo e mente (não devia ser difícil, mas é), o primeiro passo está dado. É cliché, mas verdade, que vamos ao médico se temos febre ou nos sentimos fisicamente doentes, mas se nos sentimos deprimidos, ansiosos, em burnout, ou simplesmente mal sem saber porquê, não vamos. Escondemos o que sentimos e, pior, fazêmo-lo até de nós próprios. Evidentemente, não resulta, ajuda apenas  à progressão da doença. Depois chegam outro tipo de consequências que podem, inclusivamente, atingir quem nos está próximo. 

E isto, claro, dando apenas alguns exemplos mais simples e comuns.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a saúde mental afeta não apenas a vida do paciente e a sua carreira, mas a sociedade como um todo, sendo um dos maiores factores de incapacidade com um custo de 3,7% do PIB em Portugal (OCDE – Health at Glance Europe 2018). Portugal, quando comparado com os países da OCDE, é um dos países com menor literacia nesta área. A iliteracia provoca que uma elevada percentagem de doentes se sintam estigmatizados, não procurando tratamento apropriado ou atempadamente.

Igualmente, a falta de informação leva a uma grande quantidade de tratamentos ocorrer apenas a nível primário do Sistema Nacional de Saúde e maioritariamente com recurso apenas à medicação, não sendo este o tratamento mais eficaz. De acordo com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica (22,9%), sendo estimado para a área metropolitana de Lisboa a existência de 650.000 pessoas que sofrem de perturbações mentais, das quais, as de ansiedade mais prevalentes (16,5%) seguidas pelas perturbações de humor (7,9%).

Em total os pacientes em Portugal que sofrem destas perturbações têm como custo global 2090 anos de vida saudável e produtiva perdidos, colocando o país em 10º a nível mundial (Global Burden of Disease Study 2017- Institute for Health Metrics and Evaluation). Extrapolando este valor para a Àrea Metropolitana de Lisboa estima-se a perda de 576 anos. 

E penso que não vale a pena dar mais números. As  evidência são mais do que muitas.

– Falar sobre o assunto nas diversas vertentes cultural, social,
familiar ajuda a quebrar a vergonha do mesmo?

Do meu ponto de vista, obviamente! Estar em locais apraziveis, descomplicados, que nos são simpáticos e que frequentamos para assistir a espectáculos, cinema, exposições –  ou o que for – faz com que deixemos de associar a saúde à doença mental. E estamos mais predispostos a receber mensagens, a partilhar, a entender. O Cinema, as artes, a música, a literatura, são por excelência os canais para melhor passar conteúdos sobre esta temática, tanto do ponto  de vista de quem assiste, ouve, lê, como do ponto do vista do artista, escritor, criador, actor, músico.

Passamos a falar da expressão artística, em vez do “problema sozinho”, do que aconteceu, das histórias, das emoções que tivemos. Passamos à fase da partilha, do entrar em contacto connosco, com os outros. Diria que são facilitadores únicos. A vergonha desaparece. Já tivemos sessões de cinema em que algumas pessoas saíram a chorar sem vergonha. E não, não tem nada a ver com estarem infelizes! Simplesmente deitaram para fora o que sentiam e isto é mesmo muito bonito. Tanto quanto libertador.

É o que se precisa: libertar, assumir e ficar bem com esse sentimento. Parar de fugir. 

No Mental Júnior já tivemos experiências fantásticas de interacção através de workshops e intervenção de teatro, com familias e os mais pequenos. E saem a falar, a perguntar, a saber que é OK ter emoções e a partilhá-las. Nestas idades, isso é quanto basta para terem um dia-a-dia mentalmente saudável. 

– Uma pessoa afectada por uma doença mental é um bom profissional?

É sim, tendo trabalho adequado à sua capacidade. Dependendo da gravidade de cada situação em particular, do que tenho ouvido a profissionais da saúde mental, especificamente psiquiatras, a inclusão e a actividade devem fazer parte, obviamente, das suas vidas. Ainda assim, importa dizer que no Festival Mental nos dirigimos para toda a população, somos sobretudo promotores da saúde mental, não nos intrometemos em casos clínicos nem pretendemos substituir-nos aos profissionais do sector.

– A saúde mental ainda é um assunto difícil de “sair do armário”?

No Festival de Cinema do Mental de 2019 tivemos uma grande preocupação com a questão do género. O nosso júri optou por programar alguns filmes muito específicos sobre a saúde mental nos homens. O estigma, é sabido, muito maior. Os homens têm ainda os alicerces impostos de terem que ser os providers, os “pais de família”. O “homem não chora”, o homem “é forte”, “não passa por essas coisas” – seja lá o que isso quer dizer!

Há estigma em geral, mas a população masculina sofre mais ainda, culturalmente desastrosa que é a nossa sociedade no que a ela diz respeito. 

Tivemos filmes muito bonitos, assertivos, dotados de enorme sensibilidade necessária à prevenção e à tentativa de mudança deste terrível estigma. O “saír do armário” é dificil ainda em grande parte da população e idades, mas para mim, preocupa-me ainda mais o peso instituído aos homens. São quem vai menos a terapias, quem ainda se acha sempre bem sabendo que não. Porque o peso é, de facto, enorme. 

E, a eles, temos que tentar ainda mais ajudar com programação e conteúdos que possam, de uma vez por todas, dar uma “marretada” na negação.

Não se esqueçam de visitar o site onde encontrarão mais informação !