Gentlemen’s Talks – André Murraças

Gentlemen’s Talks – André Murraças

Estreou ontem, a peça “Um Número” da qual André Murraças é o encenador. Uma boa “desculpa” para voltar ao Teatro da Trindade, onde em 2015 organizamos um debate sobre Moda e Teatro, na VFNO.Tivemos uma conversa interessante com o encenador e colocámos algumas questões como é hábito:

1. O que faz um homem ser elegante?
As suas acções. E também o que ele lê e a música que ouve. E um lenço de bolso, claro.

2. Quais são as peças imprescindíveis no guarda-roupa masculino?
Sou grandinho portanto tenho de ter essa consciência e não usar tudo o que me apetece. Ainda assim isso não me impede de ter um bom fato, camisas brancas, sapatos para quando é necessário e sapatilhas para um dia mais descontraído. Acessórios tipo gravata e pocket squares dão sempre aquele toque final. Coisas quentes e um pijama confortável são básicos para mim.

3. Tem role models na elegância masculina? figuras que o inspirem?
Há os dandies vitorianos pela atitude: Oscar Wilde, por exemplo. Depois olho para o Cecil Beaton e muito mais atrás o Beau Brummell. Gosto de ver como os homens se vestiam nos anos da guerra mundial. Mergulho muito no ambiente de cinema de hollywood desse tempo. Clássicos intemporais como Cary Grant, Randolph Scott, Rock Hudson.  Dantes os homens vestiam-se melhor, acho. Havia uma maior preocupação. Usava-se chapéus. Como diz aquela canção do Sondheim: Does anyone still wear a hat?

4. Porquê este tema e esta obra? Ciência e relações humanas contemporâneas? Um tema urgente?
O espectáculo Um Número fala da clonagem para falar de muitas coisas. É a história de um filho que descobre que é um clone de um filho que já morreu e confronta o pai. Será uma peça de teatro sobre as relações entre pais e filhos. No fundo sobre o quanto a sociedade está a ficar sem humanidade. E de como estamos a perder a nossa identidade. O estilo também é algo que nos define como únicos. É preciso não ceder a andarmos todos vestidos de igual, por exemplo.

5. A autora é conhecida pelas suas obras intervencionistas de temas actuais, é difícil encenar este temas tão próximos de nós? 
Não. É para isso que serve o teatro, não? Para debater e colocar questões.

6. O que nos define? o que define o ser humano? no final deste trabalho tem mais ideia disto?
Será a nossa singularidade. E isso em tudo o que fazemos, vestimos, dizemos, fazemos. É isso que este espectáculo diz: que podemos clonar e reproduzir fisicamente alguém mas depois o seu interior, as suas referências, a sua personalidade será sempre diferente. Igual mas completamente diferente.

Sinopse

Um filho descobre que é, na verdade, um clone que o pai fez do seu único filho. Confrontados com a notícia, o pai é obrigado a revisitar um passado de decisões e o filho clonado procura o seu original.
Um texto da premiada autora inglesa Caryl Churchill, que parte das questões ligadas à clonagem humana para falar das relações entre pais e filhos e, em último caso, sobre a identidade individual.
Quem somos nós? O que nos define? Somos feitos de genes familiares, de referências culturais e sociais ou da eventual alteração biológica antes de nascermos?
Virgílio Castelo é o pai, sereno e inocente de início, e José Pimentão interpreta o filho original e os outros dois clones, num desafio como ator que se revela em três diferentes personagens. O espetáculo explora as ligações familiares, num combate de palavras entre o pai e os seus filhos, numa era em que a ciência e a tecnologia interferem na vida humana.

André Murraças

Ficha técnica

De: Caryl Churchill
Tradução: Paulo Eduardo de Carvalho
Encenação, cenário e figurinos: André Murraças
Com: Virgílio Castelo e José Pimentão
Produção executiva: Mónica Talina
Um espetáculo Um Marido Ideal
Coprodução Teatro da Trindade INATEL e Pinguim Púrpura

Teatro da Trindade, Chiado, em cena de 16 de Janeiro a 8 de Março