Gosto do “lirismo” do Papa Francisco

Gosto, sim, do “lirismo” do Papa Francisco, não posso deixar de afirmar nesta sexta-feira santa, Boa Sexta-feira como dizem os anglofónos “Good Friday”. E, que podíamos perguntar que tem de bom, não será “lirismo” pensar que uma morte é boa? Sim, todo o acto de fé é um certo “lirismo” numa vida cheia de morte, injustiça social, onde os grandes continuam a engordar com o trabalho dos pequenos, onde a falsidade impera e o aproveitamento surge em cada esquina vinda de todos os quadrantes, político, cultural, das artes, da religião ou mesmo da família.

Sim, de facto tal como as qualidades de um gentleman, a fé não deixa de ser dar um aspecto “lírico” à vida quotidiana, pensar que será possível um mundo melhor, sem discrepâncias sociais, onde a imagem não é tudo, onde a sensibilidade pelo próximo marca agendas políticas e não o petróleo ou as armas.

Olhar uma morte como uma entrega pelos seus irmãos, e como um começo, não tem nada de actual nem é lógico, faz parte de um certo “lirismo” da fé. A fé não é só decretos, excomunhões, nem quem está dentro ou fora da igreja, não é um sentimento abstracto mas não é o direito canónico. Cristo quis que vivêssemos em conjunto a nossa fé, e daí, a igreja mas que também acabará.

Tantos católicos “líricos” que podíamos citar aqui, que quiseram ir mais além do que está permitido:

Nada te turbe,
nada te espante,
todo se pasa,
Dios no se muda,
la paciencia
todo lo alcanza.
Quien a Dios tiene
nada le falta.
¡Sólo Dios basta! 

Santa Teresa de Ávila

No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte…

Francisco de Quevedo

As palavras do Papa Francisco, figura controversa para alguns dentro da igreja, na celebração do Domingo de Ramos dão o tom para estes dias que vivemos:

“Nesta celebração, parecem cruzar-se histórias de alegria e sofrimento, de erros e sucessos que fazem parte da nossa vida diária como discípulos, porque consegue revelar sentimentos e contradições que hoje em dia, com frequência, aparecem também em nós, homens e mulheres deste tempo: capazes de amar muito… mas também de odiar (e muito!); capazes de sacrifícios heroicos mas também de saber «lavar-se as mãos» no momento oportuno; capazes de fidelidade, mas também de grandes abandonos e traições”