Civic à Moda do Porto

Para ensaiar o quase-novo Honda Civic decidi ir levá-lo a passear à Invicta. Nada que me assustasse, pois não só este é o detentor do record do Guiness do mais baixo consumo automóvel, como tem mais um ou dois trunfos na manga. Chegar ao Porto é fácil. A1, 21 euros e alguns cêntimos e pisar o acelerador.

De acordo com o nosso código da estrada deveremos demorar qualquer coisa como duas horas e meia. É tempo mais que suficiente para treinar o meu “sutuaque du nuorte”!

Começa a minha jornada. Tinha pensado não ficar lá a dormir e, por isso, tudo estaria programado para voltar para Lisboa ao fim do dia. Arranco, e rapidamente percebo porque é que este é carro já vai na sua centésima geração: a qualidade geral impressiona, especialmente para o preço que custa. Curioso como este carro também atravessa gerações. Tanto os mais velhos como os mais novos gostam dele e isto diz muito acerca da sua versatilidade. Uma mecânica invejável, um design que tem evoluído muito bem ao longo do tempo e uma miríade de possibilidades.

Devem estar curiosos em relação aos trunfos que falei. Vamos lá, então. Para além de ter um motor 1600 a gasóleo com 120 cavalos e uns brutais 300 Nm de binário às 2000 rotações, tem possivelmente a melhor caixa de 6 velocidades manual do mundo. Dá vontade de ter velocidades infinitas para poder estar permanentemente a mudá-las e sentir aquele escalonamento quase perfeito. A embraiagem, apesar de simples, comporta-se muito bem e acompanha a caixa como se de um sidekick de algum super-herói se tratasse. Em relação a números o Civic não se fica por aqui. Anuncia um consumo médio de 3,6l/100km mas nunca conseguirá menos que 4,6 a 4,9 em condução normal a lenta. Se puxar um pouco mais irá ver algo mais parecido com um 5,5. O que não é nada mau! Se andar com o carro a 180/190 os consumos nunca passarão dos 7,5l/100km. Consegue uma velocidade máxima de 207 km/h mas é capaz de ir um pouco além dela.

Chegando ao Porto não tem nada que saber. É entrar pela cidade e aproveitar tudo. Mas tudo mesmo! A arquitectura, o Douro, as pontes, os monumentos, as gentes, tudo! Nesse dia o trânsito estava um pouco agitado mas era quase hora de almoço e, ao fim da tarde, jogava o FCP contra o Maccabi de Telavive. Decidi ir almoçar e, estando na capital do norte, nada melhor que comer um petisco tradicional. Dirigi-me, então, para o McDonald’s dos Aliados, considerado o mais belo restaurante desse franchise no mundo.

É giro, sem dúvida mas, quando soube que acabaram com as parcerias e que o meu cartão jovem já não servia para nada, ficou bastante mais cinzento e feio. Acabada a refeição, fui passear pela cidade que considero a mais bela de Portugal. Tudo está tão perto, tudo é tão belo e ao volante deste Civic tudo fica melhor. Esta nova versão conta com um restyle na frente e na traseira. Os para-choques estão mais agressivos e desportivos, a traseira tem um “mini-difusor” e uma pequena asa e a lateral conta com uns apliques que acompanham as alterações no design e protegem as portas. Fui pela beira rio até à Afurada tirar umas fotos. O Sol estava alto e quente mas, quando voltei, deitava-se sobre o horizonte e banhava a cidade com um manto laranja e roxo. O carro, azul forte, parecia ter sido feito para aquilo mesmo.

Em frente às caves do vinho do porto tirei mais umas fotos mas, infelizmente, não provei do néctar. Aproveito para um aviso de prevenção rodoviária: se beber, não conduza… especialmente se tiver provado estes vinhos porque os pode mandar fora e é um desperdício. Neste carro é bastante fácil isso acontecer. As jantes são de 17 polegadas e a suspensão foi trabalhada a pensar não só no conforto mas, também, nas prestações. A posição de condução pode parecer alta ao início, mas assim que passar cinco minutos a conduzir vai perceber que afinal está bem assim. Tem tecnologia para dar e receber. Câmara traseira muito boa – que dispensa perfeitamente os sensores de estacionamento – bom sistema de som, ar condicionado automático de dupla zona, etc. Nesta versão ensaiada, faltava, apenas, o sistema de navegação, o leitor de sinalização e o sistema de anti-colisão.

À noite tinha combinado ir comer uma francesinha com o meu primo. Antes disso, era preciso voltar para a baixa e esperar por ele. Segui viagem e apercebo-me que o meu telemóvel estava a ficar sem bateria. Um horror! Decidi ir para a Avenida dos Aliados. Ali haveria de encontrar solução. E assim foi. Dirijo-me a um posto de turismo e espero a minha vez. A rapariga que atendia os turistas era versada nas língua europeias. Falava um francês fluente e com sotaque mas, de vez em quando, saía-se com um “pórrque”. Foi extremamente prestável e lá deixei o telemóvel a carregar. Enquanto esperava, fui dar um passeio. A Avenida dos Aliados é, para aí, um quarto da Avenida da Liberdade, mas não é por isso que o Porto é menor.

Pelo contrário! A imponente estátua de Garrett, no topo da avenida, mesmo em frente à Câmara Municipal, é um verdadeiro marco portuense e uma ode à cultura e educação. A avaliar pelos participantes em reality shows, muitos jovens do Porto estão a precisar de a admirar um pouco mais. Fiquei, também, a saber que um ou outro alto cargo da câmara do Porto tem aspecto de, de dia, servir a República e os munícipes e, à noite, servir bebidas num qualquer bar da moda com aquele estilo Santana Lopes 2005.  Entretanto, enquanto passeava, passei ao lado de um taxi estacionado e, uns dez metros à frente, apercebo-me de que uma senhora me seguia, proferindo uns sons semelhantes a “ehh”, “ahh” e “eww”. Viro-me e eis que ela me diz “taxi.. c’est à vous le taxi?”. Era tão fixe ter dito “É claro, dona! É para onde? Gare do Oriente?!”, mas não. Acenei que não e ela, com medo que eu fosse, por oposição, um guna, foi embora apressada. Sim, fui confundido com um taxista. Se a minha vida já não era fantástica, agora não melhorou muito.

Enfim, peripécias à parte, este passeio a uma das jóias da Eurpa, com um carro que é uma jóia automobilística, foi uma delícia. Tal como a francesinha que jantei. A repetir, definitivamente, muitas mais vezes. Na volta, o Civic portou-se tal como sempre: imaculado, bem comportado e a devorar quilómetros noturnos como se fossem rebuçados. Parece que já faz isto há uma vida inteira… sempre sem diabetes.

Rafael Aragão Rodrigues

Agradecimentos à Honda pelo acesso a este modelo