Gentlemen’s Style by Eduarda Abbondanza

EA

Nesta semana da 43ª edição da ModaLisboa (9 a 12 de Outubro no Pátio da Galé – Praça do Comércio), começamos uma nova secção de entrevistas a senhoras sobre o estilo masculino. A primeira delas foi  a presidente da Associação ModaLisboa, Eduarda Abbondanza.

O acontecimento e evento ModaLisboa revolucionou o mundo insípido da moda portuguesa nos anos 80 e 90 e levou Lisboa para a boca do mundo exterior ao nivel da concepção/design de moda e criatividade.  Mudou cabeças e o próprio entendimento da moda portuguesa e, de modo especial, a moda masculina.  Ainda hoje marca os calendários de muitos profissionais e amantes das passerelles.

1. O que faz um homem ser elegante?

Para mim, mais que um homem bem constituído ou bem vestido, é um homem que eu considero interessante. Um homem que sabe olhar ao seu redor e avaliar a vida, as opções, a elegância de trato e como interage com os outros.

Depois, isso revela-se no exterior com um equilíbrio de maneiras e peças e roupa. Embora tenha a ideia do homem ideal que passa por coisas simples como ser alto etc

Sou muito sensível aos aromas portanto é importante encontrar o aroma que se adequa à nossa personalidade; neste momento, os homens têm à sua disposição uma profusão de ofertas para que possam encontrar o seu aroma.

2. Quais são as suas peças imprescindíveis no guarda-roupa masculino?

Na continuação da pergunta anterior, o homem elegante é alguém que sabe o que pode vestir; ou seja vive com o seu corpo e proporções. Saber vestir bem é conhecer-se seja pelo bom ou pelas limitações.

3. Quando se fala em elegância masculina, tem algumas figuras de referência?

Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy, Tom Ford, Sean Connery, Jeremy Brett e Armando Cabral.

4. Quando se fala em design de moda português, qual a relevância da criação só para homem? Tem lugar em Portugal?

Dentro da área que trabalhamos, das marcas de autor dos criadores nacionais existem poucos designers a trabalhar exclusivamente homem. E é algo muito importante porque faz parte da nossa legacy, Portugal tem uma vasta tradição na construçao clássica do vestuário de homem. E que mesmo adaptando dos elementos da modernidade, a moda masculina será sempre nascida do vestuário clássico.

Nós, Portugal,  temos uma tradição grande neste sector,  por isso, não se percebe porque existem poucos criadores. Podemos realçar Nuno Gama, Ricardo Andrez numa vertente diferente com uma linguagem própria  e o Miguel Vieira. Nesta edição porque há uma colecção só de homem separada da senhora (Miguel Vieira) surgiu a oportunidade de haver dois desfiles.

Esta é uma área da moda que nao está de todo completada em Portugal e está totalmente em desenvolvimento, talvez pelo um delay pelo sector masculino a criar esse indíce de modernidade e de ter padroes mais pré-estabelcidas da parte do homem consumidor. Neste sentido, o trabalho dos designers vai muito direccionado para as procuras, ou seja uma resposta à procura do mercado e imagino que isto leve a um certo atraso de interesse. Mas, neste momento, aparece como uma área em franco desenvolvimento. Temos o know how que é o nosso legacy na área masculina e no calçado (masculino) e não temos tantas marcas a desafiar.

Mas, na própria  formação académica até agora não existiram assim tantos alunos interessados na vertente masculina pela razão que os próprios cursos eram formatados para a saída feminina. A formação nos alunos na área masculina, pode abrir essa realidade e ajudar a desenvolver esse caminho. Mesma na formação técnica da modelagem tudo era mais dirigido para a criação feminina daí que os alunos fossem mais cativados para esse lado.

Como em tudo na vida, não existe uma razão habitualmente mas um conjunto de razões para os problemas. Quando se pensam os mesmos pouco a pouco, também se pode ir encontrando a sua resolução.

5. O “tema” desta edição da modalisboa é legacy, pois existe um legado da ModaLisboa à sociedade portuguesa. Qual é?

Quando se pensou no tema nao se pensou só na questao da ModaLisboa mas Legacy como um pensamento que a Europa neste momento se debate.

Existem todos estes anos do fenómeno da globalização e as empresas optarem por serem gigantes e não terem ponto de origem, porém, neste momento, a Europa já que perdeu a fabricação maior tem de recuperar as micro empresas e a produção familiar. E, sem a menor dúvida, a moda tem uma relação muito grande com as famílias e produção artesanal. Também se pensa em legacy na ModaLisboa com os seus 23 anos de existência mas sempre neste pensamento mais global e olhando para trás no ponto de vista de construção de futuro. Ver tantos processos que iniciámos e outras entidades também já o fazem e seguiram. Somos um projecto de formação na mudança de paradigma da indústria de moda porque tínhamos somente indústria de confecção. Fomos nós que levantamos essa questão, moda versus confeccção e textil.

A indústria de moda é algo mais envolvente que a indústria de confecção. Envolvente e englobante pois considera a segunda mas desenvolve-a e cria uma marca.  Afinal, contribuímos para a construção de marca da moda em Portugal e para essa conversão.

A partir desta conversão,  assistimos ao proprio discurso de abertura das e nas empresas, para além de produzir, pensam o seu produto. Assim não reproduzem somente,  também assumem uma linha de estratégia para as peças e para a sua oferta. Esta é a nossa legacy e que já está inscrita na história. E é algo que já vamos verificando nas novas gerações de designers e constructores da moda para quem o paradigma é diferente do que era o nosso porque o princípio de tudo já está criado.

Agora é desenvolver, acrescentar, continuar e renovar; a evolução da modernidade não apaga a historia, mistura-se e junta-se a ela. Se por um lado os prints de 3D resolvem muitas coisas no design, voltamos a dar importância às pequenas produções com handle care e com recuperação de técnicas tradicionais de alguns partes do nosso território (e podemos falar de cada região específica de cada país da Europa) e que não fazem parte da globalização. A legacy é isto; por isso falamos de ModaLisboa mas não só; de Portugal e da Europa. A Europa vai se erguer partindo da diversidade e das pequenas indústrias ou seja, da sua legacy.

Photo by Marisa Cardoso