Em Portugal, a Moda não pertence a um feudo

A moda pertence à tradição de design, à criatividade, aos seus criadores, à sociedade. Nesta data emblemática da ModaLisboa, e ao começar esta edição Together reproduzo aqui a entrevista que fiz em Março para a revista Gin Lover’s com Eduarda Abbondanza:

25 anos de história, de ModaLisboa, de Portugal, da moda em Portugal, nossos 25 anos de história foi o mote da conversa que tive com Eduarda Abbondanza, presidente da ModaLisboa. Nesta data memorável, um bloguer de moda com apenas três anos de vida quis saber mais da experiência de uma instituição, experiência, conceito que continua a marcar a sociedade portuguesa a muitos níveis.

Falámos de experiência, ambiente, conceito mais que evento episódico. Isso é só a ponta mediática do iceberg, do fenómeno ao qual muitos fazem referência como a semana de moda de Lisboa.

Porém, Eduarda logo de imediato desdramatiza e afirma que “não são os 25 anos de um evento, são os 25 anos da sociedade portuguesa e de um conjunto alargado de pessoas. A ModaLisboa nasce por iniciativa de um pequeno grupo mas porque tem uma massa critica à sua volta disponível para que pudesse nascer. Para o simples espectador, trata-se de uma fashion week mas é um trabalho anual, que para ter aqueles dias de visibilidade implica um pensamento constante em relação da organização mas face às respostas que o momento exige, a área da moda exige e o estado dos criadores exige”.

Pensar a ModaLisboa desenvolveu-se na relação com todos os elementos, tudo puxado a uma velocidade constante, encarado como um trabalho de desbravamento de terreno para incentivar mudanças embora “nem todas tenham sido feitas por nós, mas até 2002 tivemos nesse pelotão da frente. Estivemos à frente de tudo e de todos na transformação. de uma indústria antiga de confecção para aquilo que é uma indústria mais moderna e que envolve outras áreas de formação e emprego que é a indústria da moda”.

Ouvi avidamente durante o nosso diálogo porque para quem não viveu o começo do fenômeno da moda em Portugal, não tem muita noção do início “Quando começamos em 1991, não havia ensino de moda em Portugal, a palavra design não existia, não só a palavra design de moda mas design. Quem trabalhava em moda era chamado de estilista, e nós tivemos 25 anos a trabalhar para que a comunicação fosse sempre no sentido de designer, autores e criadores” acrescentou Eduarda “Introduzimos no nosso discurso tantos conceitos que só mais tarde foram entendidos como indústrias criativas”.

A ModaLisboa apresenta-se como geradora de cultura “Sem dúvida, a própria Ana Paula Lemos, colaboradora muitos anos, dizia que é uma master class permanente, a ModaLisboa não pára no tempo, questiona sistematicamente tudo, olha para o mundo e para a sociedade e reflecte sobre tudo, sabendo que o nosso trabalho é a moda”.

O que havia em 1991? “Em 1991 havia uma agência de modelos, a Central Models, havia uma revista de moda que era a Marie Claire, não havia ensino nem fotografia de moda, aparece o trabalho de Pedro Cláudio e Inês Gonçalves mas eles começam a actividade ao mesmo tempo que íamos desbravando estas fronteiras, não havia jornalismo de moda mas sim um jornalismo cultural que começa também ter colunas de moda através do efeito ModaLisboa, não havia esse pensamento nem discussão. sabendo que se trabalhava sob estação sem a antecipação de seis meses como agora” e para além disso, “Não havia equipas de bastidores, não existiam aderecistas, maquilhadores no sentido de moda, não havia gabinetes de comunicação quanto muito para moda, os primeiros attachés aparecem dentro do contexto do evento. Assim, quando aparecem outras organizações, posteriormente, elas são apoiadas nas micro-estruturas que nasceram connosco e aparecem criando mais oportunidades no mercado”.

MODALISBOA TOGETHER | SPOT from ModaLisboa – Lisboa Fashion Week on Vimeo.

Para Eduarda, “A ModaLisboa é uma vida, é o meu país, é uma intervenção que todos nós fizemos da mudança paradigmática do pensamento dessa mesma sociedade. Mudança no ensino, agora temos 13 estabelecimentos de ensino homologados com licenciaturas, mestrados e doutoramentos em moda”.

O nascimento da ModaLisboa deu-se num contexto histórico preciso, a sociedade portuguesa deu uma volta em 1991, ou seja, o acontecimento/fenómeno ModaLisboa não nasce isolada. Depois da revolução deram-se as manifestações, consolidações das estruturas democráticas seja o voto, a liberdade de expressão e as mudanças governamentais constantes, bem como a criação das identidades políticas e a liberalização da própria sociedade. mas depois dos tumultos o país esteve parado, segundo Eduarda, “Vou para Milão no princípio dos anos 80 e volto nos finais e encontro uma efervescência na sociedade.

Enquanto os meus colegas e amigos têm uma memória muito activa dos anos 80, eu não tenho. imagino que nos setes anos que estive distante, a sociedade acabou por mudar e surgir estes primeiros fenómenos emergentes dentro da cultura e das artes. A faculdade de belas artes era uma faculdade importantíssima em Lisboa, pela sua situação geográfica (chiado perto do bairro alto) e porque era um bastião de actividade criativa.

Quando chego, já existia o bairro alto, já existia o frágil, encontro uma Lisboa diferente ou seja efervescente. Era uma elite claro mas fenómenos começam sempre assim com uma elite e abre-se ao mundo”.

Pela observação e pela criação de projectos, entra neste dinamismo, “Foi um rastilho, a área da moda nessa altura começa a explodir e a tomar proporções que nenhuma outra área tinha, sabendo que a ModaLisboa não trabalha só moda, mas trabalha com arquitectos, designers para definir o seu território conceptual, produzimos espaços e modernidade na cidade toda. nas intervenções que fizemos ao longo dos tempos. Não podemos esquecer que abrimos a primeira concept store”.

E agora, 25 anos depois? “Muitos aspectos positivos na sociedade portuguesa”, aponta Eduarda resultantes da modernização desta mesma sociedade. “Não posso falar em estagnação mas em falta de movimentos efervescentes ou seja, de momento, o processo de modernização para além de democratizar muitos movimentos que eram de elites, com a mudança comercial da tipologia de lojas e produtos e proporcionar muitas infra estruturas para a iniciativa privada falta-lhe movimentos significativos do ponto de vista criativo”.

Numa época em que temos bastantes desafios “Sim, desafios ao nível de aprender a trabalhar em conjunto, largar questões que são despropositadas fora do seu contexto onde perdemos tempo e energia, ultrapassar demarcações de território num país da nossa dimensão e, sem dúvida, recuperar a nossa confiança. Confiança em Portugal, no nosso trabalho e na nossa produção”, no dizer de Eduarda “Esta confiança gera uma massa crítica positiva onde a criatividade é fomentada e desejada”.