Ser comentador de futebol e ser elegante!

André Ventura  é Professor Universitário e Comentador da CMTV, sendo neste momento um dos rostos mais mediáticos do comentário desportivo.  Falou ao Gentleman’s Journal sobre elegância, sensualidade…e muito mais!

Como é viver o dia-a-dia de um feroz comentador desportivo?

É acima de tudo curioso. Comecei na BTV e, quando passei para a CMTV, participei sobretudo em programas de justiça, enquanto Professor de Direito. Mas o gene do futebol está lá, sempre esteve…e quando o Diretor do Correio da Manhã e da CMTV me convidou para fazer o programa desportivo de segunda-feira, enquanto representante do Benfica, nem sequer pensei duas vezes.  Foi um voltar às origens, mas com muito mais intensidade.

As pessoas reconhecem-no na rua?

Sim, bastantes vezes, embora tenha que dizer, em abono da verdade, que nem sempre com os comentários mais agradáveis (risos). No início chocava-me um pouco, porque estava habituado às abordagens amenas e cordiais sobre temas de justiça. Com o futebol habituei-me, verdadeiramente, a ser insultado. É mesmo assim, vive-se com paixão e intensidade. É assim que eu o vivo, também. Mas se lhe mostrasse a minha caixa de spam no email ou no facebook ficaria aterrorizado…

Como reage a isso? Toma cuidados ou precauções?

Faço a minha vida normal. Aliás, a televisão não me fez mudar em nada os meus hábitos. Vou aos mesmos cafés que sempre fui,  ocupo o mesmo gabinete que ocupava, vou de férias para o mesmo sítio. O único cuidado que tenho é evitar zonas com muita gente ou, naturalmente, aglomerados de claques e grupos semelhantes. Em grupo, as pessoas ganham muito mais coragem para insultar e ofender os outros…

Vai continuar a fazer televisão e a dar noites difíceis aos comentadores do Sporting ou do FC Porto?

Gosto genuinamente de televisão. É onde me sinto bem. Quanto ao confronto com os outros comentadores devo dizer o seguinte: tirando um caso ou outro, somos amigos e respeitamo-nos mutuamente. Procuro sempre que a emoção clubística não me faça perder o respeito e a consideração que tenho de ter pelos outros comentadores…

Mas tem noção que ás vezes parece uma batalha campal?

A sério??? Nunca me tinha apercebido (risos).  Mais uma vez: futebol é intensidade e emoção. É natural que as pessoas entrem, muitas vezes, em acesas trocas de argumentos. É para mim um ponto de honra, um ritual quase religioso: por mais duro que tenha sido o debate cumprimento sempre todos os presentes no final. O Fernando Mendes que o diga (risos)

Tem receio do que a sua reputação de jurista e de académico fique prejudicada pelo futebol?

Pode parecer um lugar comum, mas não me preocupo especialmente com a reputação.  Fazer bem o meu trabalho, isso sim, preocupa-me. Conforme já tenho dito várias vezes, a imagem do académico isolado, fechado do mundo, numa torre de marfim, não faz hoje qualquer sentido. Não sou melhor nem pior professor universitário por comentar futebol com paixão.  Não me torno um jurista menos qualificado por falar de futebol na televisão…

E os seus alunos, como reagem? O que lhe dizem às terças-feiras?

Geralmente incentivam-me a dar mais nos portistas e nos sportinguistas (risos). Outros vêm dizer-me que não concordaram com isto ou aquilo. Mas de facto tem graça: estamos a falar de Faculdades de Direito e discutimos mais os programas de futebol do que os de justiça (comento no programa Rua Segura, um excelente noticiário da actualidade de justiça e segurança, às quintas e sextas-feiras).  Respondendo directamente: dentro da Academia nunca fui maltratado por qualquer questão relacionada com futebol.

As preferências clubísticas são importantes nas suas amizades?

Não. Sou amigo dos meus amigos. Ponto. Sejam eles de que clube forem. Não me canso de dar este exemplo: o Prof. Jorge Bacelar Gouveia é um dos meus melhores amigos e é um sportinguista de gema, aliás Presidente do Conselho Fiscal do Sporting.

Mas na família é tudo benfiquista, pelo menos tanto quanto tem vindo a público?

Sei ao que se está a referir, mas deixe-me dizer-lhe o seguinte: toda a minha família é benfiquista. Cresci num contexto em que o meu avô paterno ouvia os jogos do Benfica no rádio e vibrava com a equipa. O meu pai era assíduo do Estádio da Luz e o meu irmão já quer fazer o meu sobrinho sócio no primeiro ano de vida. A minha família não se resume ao Pedro Guerra e ao Rui Gomes da Silva, embora compreenda, naturalmente, a associação que tem sido feita. Quis o destino que às segundas-feiras nos coubesse a todos defender o Benfica. E, modéstia à parte, acho que o fazemos bem, cada um no seu estilo e com a sua personalidade…Mas quero reiterar isto: a minha família traz, toda ela, a águia ao peito.

Quando o Benfica perde sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés? Descarrega na sua companheira?

(risos) É provável…têm de falar com ela! Mas como também é uma grande benfiquista é provável que entremos os dois em ‘dark mode’ . Felizmente que isso é algo que acontece muito poucas vezes. Não preciso de lhe recordar que o Benfica não perde na Liga há 13 jornadas…

Não,  não…deixe isso para o painel da CMTV. O que é elegância para um comentador desportivo?

Essa é difícil. Bom, para mim elegância é acima de tudo saber estar em todas as circunstâncias. Saber relacionar e ser confiante nesse processo. É quase um estado de alma, embora ache que esta tem direitos de autor (risos).

E sensualidade? Considera-se um homem sensual?

Nem por isso, nunca tive grande ‘entorno’ de sensualidade , como se costuma dizer. Aquele charme do galã e do conquistador acho que sempre me escapou. Talvez quando for mais velho. A minha mãe diz para não me preocupar, quem vem com a idade (risos).

Portanto posso depreender que não se considera um comentador sexy? 

Vejamos noutra perspectiva: sou sem dúvida o comentador mais sexy do Benfica actualmente na televisão portuguesa (risos). Já não é mau (risos).

Costuma acompanhar as tendências da moda masculina?

É um mundo que admiro e pelo qual tenho um certo fascínio, mas acerca do qual, verdadeiramente, tenho muito pouco conhecimento. No entanto, devo dizer isto: cada vez estou mais convencido que a forma como nos apresentamos é um instrumento fundamental de relação.