“Agente (Pouco) Secreto” – crónicas automóveis

Só nos filmes um agente secreto poderia andar em carros extravagantes e vistosos. Na realidade andam em carros normais, dissimulados e sem dar muito nas vistas. Acho eu, porque nunca vi nenhum.

Cá está, confirma-se! Mas nos filmes não. Nos filmes queremos dar espectáculo, chamar a atenção. “Vejam aquele que está no vosso encalço, seus infames criminosos, e que vos quer deter. Reparem como estou a conduzir um carro absurdamente barulhento  e muito pouco discreto e como dou nas vistas quando ainda nem sequer apareci no vosso raio de visão.”

Bem sei que a nossa noção clássica das guerras travadas longe dos olhares dos cidadãos foi completamente formada por Hollywood e, convenhamos, ninguém que ver um agente ao serviço de sua majestade a andar num carro que, muito provavelmente, um familiar nosso tem.

Só no cinema português, onde Pedro Lima, em “Contrato”, anda num Skoda Fabia e, quando pára, puxa o travão de mão num estridente e rebuliço “trrreeeek”. Mas sabem que mais? Ainda bem que não queremos isto. Ainda bem que queremos o extravagante, o charmoso e o elegante porque assim tudo tem mais gosto. Sentimo-nos bem quando vemos um carro desses a passar por nós, a fazer-nos sonhar mas, melhor ainda, quando o conduzimos. Foi exactamente isso que fiz. Não é fácil, confesso.

Aquilo que há primeira vista é um carro que enaltece  a alma é, por outro lado, um carro que nos embrutece o corpo. Seja ao início, para entrar nele – mais facilmente se entra numa loja maçónica, a avaliar por alguns políticos de formação académica duvidosa -, como a seguir, para o conduzir. Mas vale tanto o mal que faz pelo bem que sabe. Não é um carro para o dia a dia nem, muito menos, para o trabalho. Acredito que se alguém conduzisse um Morgan destes todos os dias para o trabalho, ainda antes de começar a trabalhar já estaria com vontade de acabar. Primeiro porque estaria estafado, segundo porque queria ficar um pouco mais. É excitante por demais, acreditem. Assim que nos habituemos à condução mais pesada e mecânica passamos a ter nas mãos um pequeno dom. O dom de agradar a toda a gente por quem passamos e o dom de nos deixar com vontade de conduzir cada vez mais e mais, ainda que as costas estejam a dizer que, se calhar, já chega. Mas não paramos.

Queremos ter estrada livre para acelerar aquele poderoso V8 e senti-lo a trovejar alcatrão fora, a fazer-nos sorrir a cada passagem de caixa e a encarar cada curva como um teste de nervos. Sentimos a estrada toda e ficamos a perceber que, afinal, um sistema electrónico de ajuda à condução até dá jeito às vezes, porque é demasiada informação para o nosso cérebro ter que absorver de forma tão rápida. As rotações rapidamente chegam a valores que fazem o motor soar tão alto e tão bruto que estremece tudo à volta e nos faz alcançar velocidades menos razoáveis do que seria de esperar. Tão rápido como foi, assim  volta, apenas para termos mais oportunidades de repetir este prazer.

O Morgan Plus 8 não é um carro para qualquer pessoa. Permitam-me esclarecer. Qualquer pessoa o pode comprar, de facto – este ou qualquer outro fantástico modelo da marca -, mas não é qualquer pessoa que está habilitada, por si própria, entenda-se, a possuir um. São precisas certas capacidades quem nem todas as pessoas adquiriram ao longo da vida. Quase todas emocionais! A quem não as tem, aconselho vivamente a adquirir o mais rápido possível, porque andar num carro como este é, sem sombra de dúvida, uma coisa única. Dá-nos a ideia de que é, até, possível salvar o mundo apenas a andar de carro.

Rafael Aragão Rodrigues

Agradecimentos à Morgan Portugal pelo acesso a este modelo e ao Hotel Palácio Estoril pelas fotos.