Literatura dos famosos – “Equador”

equador_capaPara esta semana recomendo um livro que tive oportunidade de reler nesta quadra natalícia e que nos transmite algumas das mais poderosas mensagens de humanidade que nunca deveríamos esquecer: “Equador” de Miguel Sousa Tavares.

A escrita de Miguel Sousa Tavares é já amplamente conhecida do público português, pelo que não carece de grandes explicações ou fundamentações. É no enredo, nas deliciosas conversas entre personagens e sobretudo no contexto meticulosamente descrito que “Equador” faz valer a sua designação de ‘grande obra da literatura portuguesa do século XXI”.

Desde a vida na Lisboa burguesa do inicio do século XIX, à maravilhosa dissertação sobre a vida politica e social do Reino, passando pelas sempre jocosas referências ao Senhor D. Carlos, Miguel Sousa Tavares consegue imprimir num romance a tonalidade e a textura literária de um manuscrito histórico. A exactidão das referências, a preocupação pelo rigor das fontes, o notório estudo e conhecimento da realidade do Portugal Imperial do século XIX fazem de ‘Equador” um hino à seriedade na literatura portuguesa, numa altura em que se publica tanto com tão pouca qualidade.

Uma das principais manifestações desta obra é o enlace permanente, quase congénito, entre a politica e o amor. Entre a gestão do Estado e a gestão das paixões. Quer seja com Matilde, com a simples Doroteia ou com a extravagante mulher do cônsul inglês, Ann, as paixões de Luis Bernardo, Governador de S. Tomé e Príncipe por nomeação régia, traduzem na verdade esse conflito permanente entre a racionalidade e a emoção, exteriorizando um outro conflito muito presente no Portugal de então: a civilização versus escravatura, o progresso versus tradicionalismo.

Luis Bernardo, o herói deste belíssimo romance, vive na primeira pessoa estas múltiplas variáveis do contexto histórico, permitindo ao leitor, através dos seis dramas e das suas interrogações, das suas paixões e dos seus deslizes, das suas ideias e das suas conquistas, vislumbrar um pouco – mas com rigor – a época conturbada que marcou os últimos anos da Monarquia em Portugal.

Tenho já dito – por diversas vezes e em múltiplas sedes – que Miguel Sousa Tavares é um escritor que tem inspirado vários novos autores em Portugal. Coloco-me, humildemente, nessa longa lista de homens e mulheres. E nesta quadra festiva, enquanto singela homenagem, eu penso que não seria excessivo considerar “Equador” como o livro português da década.

Boas Festas e uma excelente entrada em 2015 para todos os nossos leitores!

André Ventura

André Ventura

Escritor

Professor Universitário